mayara c.
Guardo uma dor abafada no peito.

O anoitecer é terrível e custa a passar. Depois que acaba a novela da seis (que minha mãe faz questão de assistir em volume alto, com muito gosto), um vácuo se abre e fico assim, zanzando pela casa, sem muito o que fazer. Ou durmo. Ou fico na cozinha, conversando com os meus pais. Enfim. Não importa.

E as noites, quando caem, estão péssimas. Álgidas e sombrias, como todo bom inverno deveria ser. A cidade está coberta por uma neblina espessa, daquelas que se custa a enxergar um palmo à frente. Frio de doer na ponta do nariz e desejar um fondue, um copo de conhaque, um edredon em boa companhia.

Não saí nenhuma das noites. Não bebi. Mas é bom. É bom aquele entorpecimento sem estar rodeada por pessoas, é bom engatar aqueles papos desimportantes com a única intenção de passar o tempo. E, por causa de Vinícius, sempre fico comovida como um pobre diabo, ali beirando a meia-noite. Cantarolo "Onde anda você" ("Hoje eu saio na noite vazia, numa boemia sem razão de ser/ Na rotina dos bares, que apesar dos pesares me trazem você..."), com o peito apertado de saudade.

Sim, Saudade. Maiúscula. Difícil de lidar. Principalmente quando estou sozinha em casa, imersa em silêncio. Ou ao voltar para casa, olhando pelas janelas do ônibus, sem som. Ou quando pega de surpresa pela lembrança daquelas milhares de coisas pequenas, que só eu ou você sabemos. Dói. E fico feliz por estar doendo, por estar sentindo, por estar voltando. Fico assim, contando os segundos no relógio, na espera por um toque de celular perdido pelo dia.

E ainda tem outras milhares de coisas que eu gostaria de contar. Essas miudezas do cotidiano em casa. Mas não quero fazer deste post um livro...
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